sábado, 3 de outubro de 2020

O PAÍS DOS COITADINHOS

 


O ETERNO PAÍS DOS COITADINHOS

Aristophanes Pereira

              Até mesmo para quem não considera a Bíblia um livro sagrado, mas, realisticamente, uma coletânea de muitos sábios e perenes ensinamentos, a palavra do Criador, na expulsão do Paraiso, “com o suor do teu rosto comerás o teu pão(Genesis 3:19)”, se reveste de um grave significado. Determinou a obrigação de produzir, pelo próprio trabalho, e excluiu a expectativa de consumir, sem a realização desse esforço vital. Ignorar essa regra divina, parece-me uma escapatória pecaminosa, pela rendição à ociosidade e pela exaltação à premiação sem merecimento. É pretender o sustento gratuito, sem o esforço para obtê-lo.   

         Fato consequente está no corolário daquele mandamento: só é possível distribuir o que se produziu, colheu e armazenou. A obviedade dessa assertiva tem atravessado os tempos, porem confundindo mentes e povos. Até hoje, perduram desentendimentos sobre a aplicação prática dessa regra tão clara e explicita. Livros e tratados foram escritos, bilhões abraçaram ideologias que prometem alternativas milagrosas e milhões morreram para implantar procedimentos enganosos.   

         Deve-se reconhecer, entretanto, com justa ressalva, que o mundo deu muitas voltas, do princípio para cá, e propiciou o surgimento de algumas variantes, nas relações de meios e condições de produzir, colher e armazenar, para distribuir. Na leitura cristã do Sermão da Montanha, recolhemos amenas flexibilizações, para confortar receios de desesperados, e construir esperanças reparadoras. Todavia, para a maioria dos bem sucedidos grupos humanos, a regra primordial continua inquebrantável. Outros, poucos, embevecidos com a fartura fácil, acalentam a ilusão que cultiva o relaxamento, enaltece a pobreza, e erige a esmola como sustentação de uma humilhada, mas receptiva parcela de seus cidadãos, que tendem à inércia.

         Felizmente, perdura a lógica positiva daquele primeiro mandamento do Criador, que a dignidade do juízo natural das pessoas incorporou, corrobora e externa, como cantam os versos do poeta popular, ao proclamar que “uma esmola, para o homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”(*). Não menos sensatez e dignidade ensina o velho ditado, quando aconselha: “é melhor ensinar a pescar do que doar o peixe”.

         Saio do plano dessas inquietações filosóficas, para a ousadia real e contemporânea de identificar o Brasil como cultor do comportamento distorcido, que insiste em confrontar a advertência do corolário: só é possível distribuir o que se produziu, colheu e armazenou. E o faz sem organizar o esforço de produzir, e cuidar de distribuir, justiceiramente.

         Fomos iludidos, desde os primórdios da colonização, pelas benesses e peditórios da carta de Pero Vaz de Caminha. Construímos uma nação coesa e rica de potencialidades – é reconhecimento compreensivo – porém profundamente injusta e dividida por diferenças e erros imperdoáveis. A ressaca de um período de relativa dureza produziu uma ânsia de afrouxamentos libertários e de miragens de riqueza gratuita, no bojo de uma nova Constituição chamada “Cidadã”. De lá para cá, são mais de 30 anos de estagnação econômica, conflitos sociais, exacerbada judicialização de comportamentos e um emaranhado novelo político. Um país sem rumo certo e coerente.

         Sem aprofundar a identificação de causas e comportamentos, que estão sobejamente estudadas em nossa história econômica, observamos, com frustrante tristeza, que desde 1980 os indicadores de evolução do PIB brasileiro são medíocres e claudicantes. Além de marcas negativas, predominam anos de registros pífios que, no conjunto alcançam um patamar médio de 2 a 3%. De 2015 aos dias correntes, são anos de PIB negativo, ou pouco acima de zero. Triste gráfico, que não desenha uma curva ascendente, mas rabisca uma linha de pequenos morros, vales rasteiros e assombrosas depressões. É o que os economistas denominam recessão.

         Justo lembrar que não faltaram advertências, como as denúncias e censuras que há meio século o arguto jornalista e escritor Emil Farhat consolidou, em seu livro “O pais dos coitadinhos”, neste trecho que repito: ”as soluções da vida brasileira não podem mais basear-se em ser isto aqui o paraíso dos coitadinhos, ou dos ajeitadinhos (...) distribuindo  à mão-cheia privilégios, concessões, vantagens, reivindicações, cargos e sinecuras, porque tudo isto cairá nas costas de um imenso, vago e indefinido burro-de-cargas que é o povo”.

          O pior é a maneira como vimos enfrentando esse desastre, agora agravado pela pandemia Covid-19. Em 30 anos, tivemos dois presidentes impichados, duas bolhas de sensatez e competência, descontinuadas nos governos comuno-clepto-petistas, e o tampão de um sangrado gestor bem intencionado. Agora, amargamos a decepção, porque não se cumpriu o ditado da esperança, que promete a bonança depois da tempestade.

         Em meio a essa imensa e crônica crise, o que temos, infelizmente, é um Brasil desgovernado, conflituoso, de intrigas mesquinhas, sem uma diretriz maior – planejada e coordenada – esquecido de reformas cirúrgicas, saneadoras, indispensáveis e inadiáveis. Não tocam nos intocáveis, e ainda teimam em distribuir benesses, sem atentar para a necessidade fundamental e primeira de produzir, construir, e dar trabalho. O resto viria por gravidade. Seria uma forma mais honesta e digna de se ganhar uma eleição.

(*) Música VOZES DA SECA, composição de Luiz Gonzaga e Zé Dantas(1953).

Jaboatão dos Guararapes(PE) 3/10/20


IMAGEM RECOLHIDA EM SITE DA INTERNET

11 comentários:

Blog do Ed disse...

Apreciei este artigo. Eu assisti a um vídeo de uma entrevista do General Mourão, vice-presidente. O general tem noção do que o país necessita para realizar as suas potencialidades. Há muitos brasileiros que se opõem à realização desse projeto.
Edgardo Amorim Rego


















































CELSO BERNARDES disse...

COLEGAS,

O que vocês acham do meu raciocínio:

O aumento de 5% da margem consignável do INSS, e o consequente comprometimento integral dos 40% até 31/12/20, trará um grande alívio agora, inclusive com ganho no IOF, conforme DECRETO Nº 10.504, DE 2 DE OUTUBRO DE 2020, mas a partir de 01/01/21 para quem tiver este percentual de 40% totalmente comprometido, encontrará dificuldades para futuras renovações, tendo-se em vista que este aumento de 5% somente valerá até 31/12/20. Então, enquanto não houver liquidações de seus empréstimos consignados, a sua margem ficará totalmente tomada e caso a partir do ano de 2021 o aposentado precisar de mais crédito, como refinanciamento, não o terá, enquanto não baixar o nível do comprometimento retro mencionado, com liquidações ou amortizações dos seus empréstimos para o nível de 35%.
ESTOU CERTO OU ERRADO?
Esta resposta é muito importante para mim!
Grande abraço!

Ari Zanella disse...

Estás correto amigo Celso. E muito bem lembrado.

Odan disse...

- COM certeza. Ninguém sabe como será o giro da RODA GIGANTE EM QUE AS DÍVIDAS ESTÃO SENTAADAS.

Miro disse...

A tabela do IRPF vai ser corrigida! Até que enfim!
HÃÃÃÃÃ!!!!!!!NÃO, NÃO, NÃO!!!!!!!!!!!!!!

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/10/governo-quer-extinguir-desconto-de-20-em-declaracao-simplificada-do-ir.shtml#:~:text=Criado%20h%C3%A1%2045%20anos%2C%20o,o%20nome%20de%20Renda%20Cidad%C3%A3.

Criado há 45 anos, o formulário simplificado da declaração do Imposto de Renda deixaria de existir. O objetivo é usar os recursos economizados com o fim do desconto padrão de 20% para financiar a ampliação do Bolsa Família, criando o novo programa social do governo, com o nome de Renda Cidadã.13 horas atrás

rubens goulart disse...

Se o Governo extinguir o desconta de 20% do IR vai ser desastroso, por favor comentem, colegas.

Ademar disse...

Se o governo extinguir o desconto de 20% do IR, apesar de ter votado em Bolsonaro e ter me enganjado em sua campanha, serei terrivelmente anti Bolsonaro e políticos que o apoiam, pois mais uma vez a classe média será penalizada, contrariando tudo que foi prometido em projeto de governo. Convenhamos que os políticos e judiciário tem mordomia demais, eles sim podem ceder alguma coisa.

Unknown disse...

Olha a Pandemia aí gente!

"Pandemia Tributária"

Leiam direito:

"Governo quer extinguir desconto de 20% em declaração simplificada do IR"

CONSIDERANDO QUE A MEDIDA SE RESTRINGE À DIRPF, quem utiliza o Desconto Simplificado PODE... ser afetado com mais IR a pagar.

Para quem opta pelo Modelo Padrão, continuaria tudo igual.

AGUARDEMOS.

Miro disse...

https://congressoemfoco.uol.com.br/economia/versao-original-da-reforma-administrativa-previa-liberacao-geral-para-privatizacoes/

Renato Sant Ana disse...

Kkkkkk...

sss disse...

A previ respondeu baseada tão somente nos 20% mencionados. Ela nada respondeu relativamente aos 15% aos quais não há restrição.