sábado, 5 de setembro de 2020

A ÓPERA DO CRIOULO DOIDO


A ÓPERA DO CRIOULO DOIDO

Aristophanes Pereira

         O inesquecível  Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, dentre suas numerosas sátiras, cravou na expressão “samba do crioulo doido” aquela situação emblemática, em que personagens verdadeiros interagem de forma distinta da história real, numa mixórdia absurda e hilária. É assim que, na letra errática do seu samba, o crioulo doido diz que “Chica da Silva obrigou a Princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes”... , e outras sandices.

         Essa lembrança me veio à mente, ao tentar resumir o que tem ocorrido com o desenrolar do drama brasileiro, ou melhor, da nossa tragédia, mormente nos últimos tempos. Uma verdadeira “ópera” do crioulo doido!

         Neste ano, o mês de agosto, desviou-se da má fama de episódios desastrosos e fatos de triste memória, na História brasileira. Menos no estado do Rio de Janeiro, obviamente, onde a esculhambação é endêmica. A Covid-19 começou a dar sinais de cansaço benfazejo; Bolsonaro e seu clã(agora acrescido do caçula 04, que desponta) foram mais comedidos; Brasília, de um modo geral, esteve mais diligente, e nenhuma tragédia de grandes proporções, país afora. Parece que os bilhões da derrama emergencial confortaram insatisfações e desassossegos. Certo?! Pura ilusão, o que havia era fogo de monturo, que reacendeu nestes primeiros dias de setembro.  

         O meu recorrente sentimento de frustração e desânimo, com relação à amalucada ópera brasileira, tomou forma real quando, de repente, me defronto com quatro narrativas distintas. Todas, coincidentemente, encontradas na mesma edição de O Estado de São Paulo, de 3 do corrente. São ajuizamentos de origens diferentes, validados pelas competências técnicas e honestidade intelectual de afamados depoentes, além da correta compleição histórica dos fatos envolvidos. Juntando-os, enxergamos o caos em que estamos metidos.

         Primeiramente, para armar o cenário desse espetáculo adoidado, recorro à concisa análise do economista Roberto Macedo(PIB AFUNDOU AINDA MAIS NO BURACO EM QUE ESTÁ DESDE 2015), quando avalia que “a economia também está em estagnação desde os anos 1980, status em que ela cresce abaixo do seu potencial”. E diz que seu objetivo “é mostrar a enorme dimensão das dificuldades em que nossa economia se meteu, para ver se nossos políticos, autoridades públicas e a sociedade em geral refletem, caem nessa realidade e atuam em sentido contrário”.

         Em seguida, encontro uma Nota Técnica, do Secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, do Ministério da Economia, na qual adverte, dramaticamente, que o abandono do teto de gastos, (mecanismo que limita o avanço das despesas à inflação), poderia mergulhar o País numa recessão ainda mais profunda em 2020, reduzir o crescimento em 2021, além de elevar juros e inflação. Esse mecanismo, vigente há quatro anos, e com sobrevida de mais seis, está longe de ser uma unanimidade, nem técnica, nem política.

         Depois, na trincheira dos que defendem uma complacente perda de virgindade do teto de gastos, destaca-se o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, que, na entrevista ao Estadão/Broadcast, justifica: o Orçamento está todo amarrado e começa a espremer áreas que têm impacto econômico e social da maior importância, inclusive investimento. Investimento público no Brasil está caminhando para zero. E aí defende uma “flexibilização limitada e transparente do teto, associada a um compromisso firme do governo com as reformas.

        Fechando o quarteto, e por falar em reformas, é Everardo Maciel, consultor tributário e ex-secretário da Receita Federal(1995-2002), em seu artigo REFORMA TRIBUTÁRIA E MISTIFICAÇÃO, que denuncia as inverdades e  mutretas por trás de uma das mais importantes reformas de que carecemos, e postergada há anos. Pergunta, com desânimo: “Como podem os parlamentares deliberarem sobre a matéria, se as informações são sonegadas a eles e à sociedade?”

         Alinhavei esse combo de opiniões, tão somente, para exemplificar, a desarrumação de múltiplos aspectos que se incrustou em nossa Sociedade, há décadas e, lamentavelmente, não vem encontrando um caminho seguro que leve a soluções pensadas, racionais e combinadas, no âmbito de um amplo acordo de salvação nacional.

         Aquele meu declarado sentimento de frustração e desânimo, potencializado pela senectude que não me assegura um tempo para esperar, ainda mais se agrava quando vejo, ao redor, a pequenez dos pretensos dirigentes, o divisionismo ideológico, o partidarismo de interesses, as ambições personalistas, o emaranhado jurídico, sob uma Constituição retalhada, fantasiosa e impraticável, e os mistificados anseios  populares. É triste não ter uma palavra de esperança, num país que se conforma com a mesmice e a mediocridade.

Jaboatão dos Guararapes, 4/9/2020.



14 comentários:

Blog do Ed disse...

O Diretor Aristophanes pouparia a preocupação, nestes tempos de coronavírus, não por motivo de sua jovem idade, que assalta a mente de seus amigos e admiradores, se não os privasse por tanto tempo de ler suas opiniões esclarecedoras sobre os momentos presentes do Brasil e do Mundo.
Edgardo Amorim Rego

Trader anônimo disse...

Texto brilhante como o acima apenas podia ser da autoria do eterno diretor...

Unknown disse...

CEF.

Seria ótimo escarrificar esse milharal.

Mas não se iludam, apesar de ser uma Autarquia, Diretorias já foram privatizadas:
- Loterias, com 2 deputados, Aécio, Fernando G., etc.
- a sorte preferindo o CN, PE, DF, GP, MG, com muita insistência.
- ...

https://oglobo.globo.com/economia/conselho-da-caixa-destitui-tres-vice-presidentes-reconduz-um-ao-cargo-22320430

CELSO BERNARDES disse...

Colegas,

Alguém saberia informar-me qual o dia de fechamento da folha de pagamento dos aposentados INSS?
Obrigado!

Unknown disse...

Amigo,geralmente,o INSS disponibiliza a folha(extrato)de pagamento do mês a partir do dia 18 ou 20.Saúde!Williams Silva-apos.PREVI

Trader anônimo disse...

Dr. Aristophanes, colegas de blog

Fazendo referência ao comentário do Dr. Aristophanes de 23/07/2020 13:52

Em primeiro lugar, pedimos desculpas pelo atraso na resposta. Realmente, existe risco de derretimento dos ativos do PREVI. Depois de muito pesquisar achamos que a única solução é aquela que preconizamos em nosso comentário colado no blog do Professor Ari em 16/01/2020 13:42. Por oportuno, o seguinte fragmento de texto, de autoria do economista britânico, John Kay, mostra-nos a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade, em se proteger os ativos de um fundo de pensão:

[...] Pension fund trustees were required to do everything possible to ensure that pension promises are riskless. But since it is prohibitively expensive, and often impossible, to eliminate risk, defined benefit schemes – in which pensions are based on members’ earnings – have not become safer.

Traduzindo:

[...] Os curadores dos fundos de pensão foram obrigados a fazer todo o possível para garantir que as promessas de pensão não apresentassem riscos. Mas, uma vez que é proibitivamente caro, e muitas vezes impossível, eliminar o risco, os esquemas de benefícios definidos - nos quais as pensões são baseadas nos rendimentos dos membros - não se tornaram mais seguros.


O principal fundamento para sustentarmos a chegada de um crack nos títulos da Bolsa brasileira está em nosso comentário colado no blog do Professor Ari em 21/10/2019 05:32. Por outro lado, demonstramos de forma profunda que o hodierno capitalismo bursátil brasileiro se equipara a uma pirâmide financeira PLANEJADA. Por seu turno, uma variante ou CONSEQÜÊNCIA da existência de uma pirâmide financeira é um crack. Lamentavelmente, não temos suficiente conhecimento para conhecermos a data de tal evento com precisão, embora acreditemos que não esteja longe.

No caso particular do fundo PREVI encontramos uma das principais vulnerabilidades de tal fundo no fato de a liquidez do PREVI ser apenas de curto prazo, conforme informação contida em EXPLICAÇÃO DA PREVI: "VAI PASSAR" (blog do Professor Ari, 15/05/2020). Neste sentido, encontramos na literatura técnica o seguinte fragmento de texto:

[...] A abordagem de fluxo de caixa contempla todas as unidades, sejam elas as famílias, as sociedades, os governos estaduais e municipais ou, mesmo, os governos nacionais, como se fossem bancos. O que é que isso significa? Isso significa que se está pensando em cada um, em cada tipo de unidade, como um FLUXO MONETÁRIO. Há fluxo de caixa positivo, fluxo de caixa negativo, dinheiro entrando, dinheiro saindo, de modo que, você deve saber que você não deve prestar tanta atenção à parte dos bens, mas ao fluxo de dinheiro, à parte do fluxo de dinheiro. [...] De um ponto de vista microeconômico, a principal consequência de ter um ponto de vista de fluxo monetário é colocar pressão, colocar ênfase, em algo chamado de “restrição de sobrevivência” ou, em outras palavras, restrição de reserva. Não é um problema de restrição orçamentária. Não é como os economistas pensam. Certamente, não é um problema de restrição de orçamento intertemporal, como os economistas pensam. É um problema de restrição de liquidez, que você precisa considerar em cada período. Você precisa ter algum tipo de meio de pagamento. [...] Esta é a restrição da liquidez. A liquidez mata você rápido. Você vai ouvir isto mais de uma vez neste curso: solvência. Como um banco, você pode continuar por um longo tempo, fazendo negócios, mesmo se estiver insolvente. Muitos bancos fazem isto. VOCÊ NÃO PODE SOBREVIVER POR UM DIA SE VOCÊ ESTÁ SEM LIQUIDEZ ( maiúsculo nosso).

Luiz disse...

Quem é esse trader anônimo? Vira e mexe e ele vem com esse tal de capitalismo bursatil, a previ vai quebrar ou não, caso positivo, qual será o nosso futuro, morrer de fome?

Unknown disse...

"BTG Pactual pode ter lucro de R$ 1,7 bilhão com carteira de crédito comprada do BB por R$ 371 milhões .Informação revelada pela Revista Fórum agrava situação dos responsáveis pela transação"

POR QUE ANÔNIMO?

1,7 bi... 0,371 bi.

Será que no BB uma ANTA repetiu o feito de PASADENA?

Sindicalistas ainda dominam?

PASADENA:

"A Petrobras informou nesta quarta-feira a conclusão da venda da refinaria de Pasadena, no Texas, para a Chevron. A refinaria foi negociada por US$ 467 milhões"
- Mais prejuízo entre o preço acordado e a quitação:

"A transferência de Pasadena foi acertada em janeiro, mas por um valor maior. Na época, o negócio foi estimado em US$ 562 milhões."

A DESCULPA
"Esta operação está alinhada à otimização do portfólio e à melhoria de alocação do capital da companhia, visando a geração de valor para os nossos acionistas.", informou a Petrobras em comunicado.

Ao todo, segundo o Valor Online, a Petrobras desembolsou US$ 1,249 bilhão pela compra total de Pasadena.

U$1,249... U$0,467.

CULPA DO BOLSONARO?

https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/05/01/chevron-conclui-compra-de-refinaria-de-pasadena-da-petrobras.ghtml

Paulo disse...

O coronel cangaceiro cujo irmão adora uma retroescavadeira, resolve tudo com meia dúzia de palavras

Odan disse...

- DR ARI poderia nos informar, se possível, a causa do aumento dos juros cobrados pela PREVI(ES). Aumentaram em 50 por cento enquanto os da COOPERFORTE e do BB, até diminuíram, NESTA PANDEMIA. A CAIXA ATÉ SUSPENDERAM A COBRANÇA DAS PRESTAÇÕES DOS EMPRÉSTIMOS ATÉ O FIM DO ANO.
MEU DEUS DO CÉU, "ONDE O BURRO FOI AMARRAR O SEU OUTRO"

Cadé disse...

Colegas bom dia, com a devida vênia do nosso querido e eterno diretor e do amigo e colega de profissão, professor Ari, gostaria de registrar que este "anônimo", fato por demais desprezível, que eu não sei quem é, e nem gostaria de saber, deveria ter ficado com os seus parcos conhecimentos de finanças e microeconomia para ele. Estudo finanças há algum tempo. Lecionei em cursos de Economia, Universidade Corporativa do Banco do Brasil. Ministrei e ministro curso de prós graduação para várias áreas do conhecimento. Ou seja, em finanças é claro que não existe risco zero. Haja vista que estudamos/controlamos fluxo de caixa. Entretanto, não podemos analisar a viabilidade de um fundo de pensão baseado em analogia e sem informações (como o próprio confessa em seu comentário). De modo que com as informações de que dispomos, via boletim divulgados pela PREVI, não há nenhuma ameaça para a saúde financeira do nosso Fundo de Pensão. Ademais, as carteiras de investimentos são por demais conservadoras e os cenãrios financeiros continuam sem novidades. A bolsa de valores brasileira se conserva com uma pontuação adequada/favorável para os fluxos de caixas da Previ (acima de 100 mil pontos); a balança comercial superavitária, etc.. O ideal seria um crescimento do PIB. A recessão que ora observamos já era previsível, em razão da pandemia. Contudo, o nosso querido e amado Brasil continua exportando matéria prima. A pandemia provocou uma queda considerável na Economia, é um fato. Todavia, as medidas emergenciais que foram tomadas amenizaram a situação. Infelizmente houveram inúmeros escandalos na gestão publica com os recursos destinados aos gastos com a saúde. POr fim, eu pediria a este anônimo, que deve ser um economista (alguém que se especializou em explicar o que aconteceu) que enfatizasse como será o cenário daqui pra frente. OU seja, fazer comparações e explicar o que aconteceu é fácil. O importante é fazer previsões/aconselhamento mediante fatos passados e as devidas correlações com os fatos presente e futuros. Por fim, é muito desagradável lidar com pessoas anonimas, cite seu nome para que possamos rezar por ti e agradece-lo pelo aconselhamentos. Desejo que o nosso Criador nos abençoe, e abençoe a todos aqueles que hoje estão no controle dos fluxos de caixa da Previ.
Cadé

Miro disse...

Não adianta, querem mesmo tirar do pobre para dar a paupérrimos:

https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/09/13/renda-brasil-area-economica-apoia-que-aposentados-fiquem-sem-aumento-por-ate-dois-anos.ghtml

Unknown disse...

E não querem dar o mísero inpc, que de longe não reflete a inflação vigente!

Blog do Ed disse...

E querem que aceditemos que estamos numa democracia. CF 14 neles...
Edgardo Amorim Rego